A lixeira dos pedidos de desculpas

Sobre gentileza, culpa e a decisão de não pedir mais desculpas por existir fora das expectativas alheias.

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A lixeira dos pedidos de desculpas
Foto: Siemeringstraße, Leipzig-Alt-West.

Dia (06.10) encontrei uma lixeira cheia de pedidos de desculpas. Fiz uma foto porque me chamou a atenção.

E, estranhamente, me reconheci nela.

Quantas vezes a gente pede desculpas por não ter acertado, mesmo tendo tentado?

Quantas vezes explica as próprias intenções, mede as palavras, reconsidera atitudes, tenta ser gentil, tenta compreender, tenta fazer melhor e, ainda assim, parece que nunca é suficiente? Sinto que, por mais esforço que eu faça, há uma barreira intransponível: eu não consigo fazê-la enxergar a necessidade de equilíbrio. Percebo que capacitar alguém emocional e racionalmente é um processo que depende apenas de si mesmo, não do meu alcance. A sensação é eu estar gritando de um lado de um abismo, incapaz de alcançar o outro. Por mais que eu tente, não posso entregar a alguém a maturidade, o equilíbrio, um pouco de espiritualidade e a lucidez que ela própria recusa buscar, ou pior, não faz questão de buscar.

Há um cansaço particular em querer acertar o tempo todo diante de pessoas que parecem sempre encontrar alguma coisa errada.

E hoje, olhando para essa lixeira, minha primeira vontade foi quase irônica:

Então abre a tampa.

Vou jogar aqui todo o esforço.
A paciência.
A consideração.
A vontade de compreender.
A preocupação em não ferir.
As explicações que ninguém pediu para ouvir.
E, principalmente, todos esses “desculpa” que fui acumulando por acreditar que precisava ser responsável até pela maneira como os outros interpretam minhas intenções. Já ouvi muito alguém reclamar da minha fala, jogar a culpa em mim, dizendo que era eu a pessoa que não sabia se expressar. Já conheço esse tipo de postura de culpar o outro e não enfrentar uma incapacidade de aceitar o que o outro fala...Minha mãe praticou muito isso comigo, por muitos anos. Para minha sorte eu tinha um pai que, ao contrário, sentava-se ao meu lado e dizia: "Me fale o que sente, o que aconteceu. Você consegue falar? Quero te escutar."

Talvez fosse mais fácil me igualar à indiferença.
Não esperar nada.
Não oferecer nada.
Não me importar tanto.

Mas existe uma diferença entre parar de ser gentil e parar de implorar para que reconheçam a nossa gentileza.

Outro dia ouvi uma frase que ficou comigo:

“Eu não peço desculpas. Dá muito trabalho ser gentil com quem não tem interesse em conhecer minhas intenções.”

Talvez eu não concorde com ela por inteiro. Ainda acredito no valor de pedir desculpas quando erro. Ainda acredito em rever atitudes, reconhecer falhas e tentar fazer melhor.

O que eu não quero mais é pedir desculpas por existir fora das expectativas de alguém.

Não quero transformar gentileza em submissão.
Autocrítica em condenação.
Empatia em obrigação de agradar.
E esforço em uma dívida que nunca termina de ser paga.

Então talvez eu realmente tenha alguma coisa para jogar nessa lixeira.

Não o meu esforço positivo.
Não a minha vontade de fazer bem.
Não a pessoa que escolhi ser.

Vou jogar fora a necessidade de que todo mundo esteja satisfeito comigo.

Porque minhas boas intenções não me tornam infalível, mas a insatisfação de alguém também não transforma automaticamente tudo o que faço em erro.

Continuarei pedindo desculpas quando houver motivo.

Mas os “sorry, sorry, sorry, sorry, sorry, sorry” que nascem apenas do medo de desagradar?

Esses podem ficar na lixeira.